segunda-feira, outubro 08, 2012

10 PERGUNTAS PARA DR. WILSON DA SILVA

O Blog Xadrez Piraí tem a honra de publicar entrevista com uma das maiores autoridades em educação e xadrez no Brasil. Dr. Wilson da Silva, é sem dúvida, um dos maiores contribuintes no estudo científico-educacional da modalidade.
Seus estudos acerca da aplicação educativa do xadrez são referência em todos país.
Nesta entrevista, Dr. Wilson da Silva fala um pouco sobre o inicio com o xadrez, relação xadrez-Cref (assunto polêmico), a importância profilática da modalidade, entre outros temas importantes.

Para saber mais sobre o Dr. Wilson da Silva acesse:

Quando começou seu envolvimento com o jogo de Xadrez?
Aprendi a jogar xadrez em 1974 ou 1975, no Colégio Estatual Núcleo Social Yvone Pimentel, na 3a ou 4a série, nas aulas de Educação Física no dias de chuva, pois a escola não tinha quadra coberta e tínhamos que ficar em sala fazendo alguma atividade. Depois desse período voltei a ter contato com o jogo de xadrez no Clube Erbo Stenzel, que descobri por acaso quando fazia um curso de teoria musical, época em que tocava numa banda de rock.

Você é coautor do livro “Xadrez, primeiros passos”, que é considerado um Best Seller no assunto, quando surgiu a ideia de publicá-lo?
A ideia foi do GM Jaime Sunye (que alias deveria ser coautor do livro), que percebeu a necessidade de uma metodologia para o ensino do xadrez no Paraná. Sunye conhecia bastante bem as metodologias utilizadas nos principais países que utilizam o xadrez como ferramenta pedagógica, e disponibilizou esse conhecimento para a elaboração do livro “Xadrez, primeiros passos”, que depois transformou-se no livro “Meu Primeiro Livro de Xadrez”.

No documentário “Kasparov x Karpov”, do Canal +, Karpov sugere que o Xadrez possa ter sido criado por extraterrestres, por outro lado, no mesmo documentário, Kasparov afirma que o Xadrez é um produto da mente humana e que podemos nos orgulhar ao pensar que os homens foram capazes de inventar um jogo tão complicado. Qual sua opinião a respeito?
Acho desnecessário recorrer a explicações extraterrestres para explicar a origem do xadrez. O historiador Harold Murray, na sua obra “A History of Chess” mostra que o xadrez evoluiu de um jogo indiano ancestral chamado Chaturang, que por sua vez evoluiu de outros jogos mais simples praticados na região. Existem diversas teorias no campo da Biologia, da Psicologia e da Pedagogia que explicam bastante bem o surgimento do comportamento lúdico  e dos jogos em geral.

Recentemente você realizou palestra tendo como tema os conflitos existentes no filme “Lances Inocentes”. Que conflitos são esses?
O conflito mais importante que vejo nesse filme é o pai (ou o treinador) transferir para o filho (ou aluno) a responsabilidade de realizar aquilo que ele, pai, gostaria de ter realizado, muitas vezes não respeitando os desejos do filho. Vejo esse conflito muitas vezes nos esportes em geral e também na educação, onde os pais muitas vezes querem escolher a carreira dos filhos.

Você acha que o Xadrez poderia ser mais bem contemplado nos programas de governo, sobretudo os atletas, com incentivos financeiros como, por exemplo, o bolsa-atleta?
Penso que é muito difícil desenvolver a expertise, em qualquer área, sem recursos financeiros e muito trabalho. Os estudos no campo da Psicologia da Expertise mostram que é necessário pelo menos 10 anos de intensa prática (ver o conceito de Prática Deliberada de Ericsson) para chegar ao nível internacional. Neste sentido, o apoio financeiro não pode ficar restrito ao “paitrocínio”, e os governos (municipais, estaduais e federal) devem fornecer o suporte financeiro para que os atletas tenham a tranquilidade necessária para desenvolver sua expertise.

Opine sobre a relação Xadrez-CREF, em que o Conselho Regional de Educação Física exige por parte dos professores o registro no sistema. Nos Jogos Oficiais do Paraná (JOJUPS / JAPS) sempre isso é cobrado.
Quando o xadrez não demostrava ainda a força e a organização que se pode ver hoje, o CREF não dava a mínima para enquadrar o xadrez no CREF. Agora que demostramos uma boa capacidade de organização e um numero grande de praticantes do xadrez no Estado do Paraná, eles nos olham com outros olhos. Penso que pela características idiossincráticas do xadrez (ser uma modalidade esportiva, mas também ser uma atividade cognitiva), a FEXPAR deve se posicionar contra tal imposição.

Existe um consenso com relação à idade que a criança deve começar a aprender o xadrez?
Quando comecei a ensinar o xadrez para crianças, no final dos anos 80, utilizávamos o referencial piagetiano, que apresenta 4 fases no desenvolvimento do pensamento lógico do sujeito: Sensório Motor (+ ou – de 0 a 2 anos); Pré Operatório (+ ou – de 1,6 a 7 anos); Operatório Concreto (+ ou – de 7 a 12 anos); e Operatório Formal (a partir  de 12 anos). Pensávamos da seguinte forma: como o xadrez é um jogo que exige o pensamento lógico, deve ser ensinado aproximadamente com 7 anos (inicio das operações concretas), o que na escola coincidia com a 1 série. Hoje temos certeza que é possível ensinar xadrez a uma criança com 4 anos, contanto que o professor conheça as características do pensamento infantil nessa faixa etária e respeite essas características.

Existe uma frase atribuída ao Millôr Fernandes em que ele afirma que “Xadrez é um jogo que desenvolve a inteligência necessária para jogar xadrez”, meio desdenhoso, não acha?
Pois é...essa frase do Millôr sempre me incomodou. Eu via algumas pessoas repetindo essa frase e nem sequer sabia se era mesma do Millôr. No meu estudo de doutorado, sobre a relação entre o jogo de xadrez e o pensamento lógico, fui atrás dela e a encontrei, e é exatamente como você menciona. Do ponto da Psicologia Cognitiva, a frase do Millôr não está muito equivocada, pois os estudos nesse campo mostram que quanto maior é a especialidade numa área, menor é a sua transposição para outros domínios. Veja por exemplo a memória: a memória dos enxadristas é extraordinária, mas somente para assuntos relacionados ao xadrez. Quando testes de memória são feitos com jogadores de xadrez, envolvendo material a ser memorizado que não tem relação com xadrez (ou memorizar uma posição no tabuleiro com as peças colocadas aleatoriamente), a memória dos enxadristas não se mostra superior a média.

Como os conceitos de Piaget sobre organização e adaptação podem ser aplicados ao Xadrez?
Piaget é um dos gigantes da psicologia do século XX. Seus estudos sobre o desenvolvimento cognitivo influenciaram muito a educação na segunda metade do século XX, e o jogo de xadrez, pensando como um conteúdo a ser aprendido, também se beneficiou. Acho que o conceito mais interessante nesse caso é o conceito de equilibração, que mostra que a inteligência avança por sucessivos desequilíbrios e reequilíbrios, chegando sempre a um patamar superior. Nesse sentido, o jogo de xadrez pode ser uma ótima forma de desequilibrar a estrutura cognitiva do sujeito!

O Xadrez como a ferramenta multidisciplinar que é, torna-se um agente extremamente importante na inclusão social. Com base nisso, e em sua visão científica e educacional, como o Xadrez pode melhorar a qualidade de vida das pessoas, sobretudo as com necessidades especiais?
Você tocou num ponto crucial. Acredito que o que está tornando o  xadrez tão popular são seus benefícios educacionais e suas características profiláticas. Do ponto de vista profilático, estamos iniciando um estudo (por enquanto na fase de revisão de literatura) sobre a possível correlação do estudo e pratica do jogo com a doença  neurodegenerativa Mal de Alzheimer, buscando melhorar a qualidade de vida das pessoas na terceira idade. Sobre as pessoas com necessidades especiais, vejo o xadrez como um jogo que é possível praticar a inclusão propriamente dita: deficientes visuais, deficientes auditivos, deficientes físicos e deficientes mentais leves e moderados podem praticar o jogo com pouca ou nenhuma adaptação. Acho que a FEXPAR poderia ir mais a fundo nessa ideia. Tenho conversado muito com o Paulo Virgilio (Presidente da Fexpar) sobre isso.

CONSIDERAÇÕES FINAIS.
Para os interessados em aprofundar as questões ligadas ao xadrez como instrumento pedagógico, recomendo a leitura do livro que organizei: Xadrez e Educação: contribuições da ciência para o uso do jogo como instrumento pedagógico.
Obrigado pelo convite e pela tua iniciativa de discutir esse assunto que é tão caro para mim também para os professores de xadrez. 

O Blog Xadrez Piraí agradece ao Dr. Wilson da Silva pela entrevista. 

7 comentários:

beltraoxadrez disse...

Parabens mais uma vez Maurídes...hoje avançamos um largo passo na direção da comprovação do "Por que Xadrez nas Escolas".
Parabens Wilson da Silva...um belo livro e uma sábia entrevista.

xadrezpirai disse...

Muito obrigado! Foi realmente muito legal a entrevista (modéstia a parte rsrs).

bloggermaurides disse...

Mauride,qdo tentamos continuar e aprimorar esse Projeto, no Clube de Xadrez Prof.Hélio Saldanha de P. do Sul,tinhamos em mente a importância de ensinar e incentivar nossas cças e jovens no aprendizado de Xadrez.
Hoje temos orgulho da repercussão,tornando o Xadrez ferramenta multidisciplinar. Da sementinha plantada e cultivada tornou-se árvore frondoza com belos frutos!! Parabéns " PENSAR GDE. PARA REALIZAR GDE.". Abç

Wilson disse...

Obrigado Jerry e também agradeço ao Maurides pela bela iniciativa que está realizando com as entrevistas!

Wilson disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MI Resende disse...

Parabéns à entrevista com um dos maiores especialistas em xadrez nas escolas, que tem no Paraná o embrião nacional através dos esforços do GM Jaime Sunyé e outros grandes profissionais.

Wilson disse...

Sim, MI Resende. Felizmente tive o privilégio de poder contar sempre com o apoio do GM Sunye, figura de valor inestimável para o xadrez brasileiro!